Em Triunfo, entendemos que dezembro é mais que um simples mês. É o momento em que olhamos para dentro de nós mesmos, para nossa história e nossa identidade como povo. Nele, acontece a Festa do Menino Deus.
Na terra da promessa do Caboclo Manoel Bernardo, essa época parece ganhar vida. É difícil explicar, só quem vivencia sente isso, mas é como se o tempo e o espaço se fundissem e a cidade abrisse uma janela para memórias que só aparecem nesse período. Na minha impressão, isso acontece devido à festividade ser tão intensa que deixa lembranças em tudo: nas ruas e no comércio, com seu movimento atípico; nas praças, onde acontecem muitos eventos sociais; nas casas decoradas com enfeites e piscas-piscas; e ainda porque muitos se recordam de quem já não está presente.
Desde a tenra infância, carrego memórias dessa celebração, sobretudo dos seus festejos, que misturavam fé, barulho e encantamento. Os fogos eram artesanais, feitos de finas varas de bambu. Na ponta, uma pequena carga de pólvora era presa com cordão e, ao ser acesa, fazia o artefato subir cortando o vento, ziguezagueando até se perder no céu.
No instante seguinte, lá do alto, o clarão se abria em centelhas e o estampido ecoava ao longe. A taboca leve descia suave, até repousar no chão em silêncio.
E nós, meninos, corríamos para resgatar o que sobrava. Aquilo era um troféu, prêmio de sorte para quem chegasse primeiro. A cada queda, uma nova corrida; a cada explosão, outra expectativa e muitas risadas. Aquele pedaço de bambu queimado, guardado por dias, trazia consigo o cheiro da pólvora e o encanto das noites de novena.
Havia também os “fogos de lágrimas”, semelhantes aos anteriores, mas que, ao explodir, não faziam barulho. Deixavam um rastro de cor, criando uma cascata de partículas brilhantes que desciam lentamente, lembrando a queda de lágrimas. Pareciam os shows pirotécnicos de hoje, em menor escala, claro, mas de beleza superior.
E tinha ainda a “Roda de Fogo”. A engenhoca era muito bem construída e girava cuspindo faíscas para todos os lados até acionar o “telegrama”, que corria em um arame por cerca de cinquenta metros até um poste do outro lado da rua e retornava. No fim, queimava o restante da pólvora e explodia. Para as crianças, de olhos arregalados e bocas abertas, aquilo era puro fascínio e a imagem daquela cena épica ficava na mente por muito tempo. Por ser relativamente caro para a época, apenas em algumas noites esse espetáculo acontecia, patrocinado pelos noitários responsáveis pelo novenário, o que aumentava ainda mais a expectativa.
Meu pai era responsável pelos festejos do dia 22 de dezembro, quando nossa família se juntava a outras no noitário, e ele sempre fez questão de que todos esses detalhes estivessem presentes.
As coisas evoluíram e os festejos já não ocorrem mais do mesmo modo. É compreensível, diante da nova realidade social. Ainda assim, é bonito perceber que o coração da festa permanece intacto, quase como há duzentos anos. As novenas com o Pai-Nosso e a Ave-Maria cantados, a ladainha que se prolonga pelo templo e o hasteamento da bandeira no átrio da matriz continuam como símbolos eternos de nosso costume. A Banda Cabaçal, icônica, incorporou-se a essa tradição e hoje é parte inseparável do novenário e de sua memória coletiva, conferindo também um efeito peculiar à festa.
De encanto singular, as vestes rosas. Os fiéis pagam suas promessas vestindo essa cor durante os onze dias de festa religiosa, e a igreja se enche de um rosa devoto, cheio de fé e simplicidade.
No último dia, a procissão percorre as ruas como um abraço demorado. E, para encerrar o novenário, acontece a coroação da pequena imagem do padroeiro, marcando o fim desse tempo de devoção.
Agora, Triunfo se despede de mais um dezembro e se prepara para o novo ano. No coração das pessoas, o tempo já começou a contar outra vez, entre a saudade do que passou e a esperança do que ainda virá.
Antonio Filho de Andrade
*Texto publicado na Antologia Vozes Narrativas, da Editora Articule. O lançamento da obra ocorrerá em setembro de 2026, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
