De vez em quando regresso ao sítio Cacimba Velha. É ali que estão minhas primeiras memórias, o berço de tudo que veio depois. A terra segue imutável; o gado, que ainda mantemos, no mesmo ritmo de sempre. A casa continua de pé, atendendo a um pedido silencioso de meu pai. Sou fruto deste chão que ele tanto amou. Esta casa é o nosso ponto de encontro entre o início e a eternidade.
Perto da casa, há um pereiro. Sempre houve. Com as primeiras chuvas, ele se revela.
É árvore de pequeno a médio porte, tronco firme, acostumada à seca, dessas que aprendem a resistir em silêncio. Quando a chuva chega, as flores surgem quase de repente, pequenas, brancas, espalhadas pelos galhos pouco folhados. O que mais chama atenção não é a flor, é o cheiro. Discreto, limpo, levemente adocicado, ele se espalha pelo ar e se mistura ao frescor da terra molhada.
Ao redor, o cenário vai se recompondo aos poucos. O gado no pasto baixo, o chão ainda escuro de chuva, o vento trazendo esse cheiro de flores. As lembranças vêm devagar, quase sem aviso.
Entre essas lembranças, a infância volta inteira, sem faltar pedaço.
Os frutos do pereiro continuam caindo no chão. Duros, em forma de gota. Quando eu era menino, viravam bois. Com um galho seco de velame, os tangia pelo terreiro. Era ali que o mundo começava, entre o curral e a sombra da casa.
Hoje, passando outra vez por ali, entendo que nada disso ficou para trás. O pereiro continua dando fruto, a casa segue de pé, o chão é o mesmo. Talvez seja por isso que aquele lugar ainda me diga tanto, e o cheiro do pereiro continue me lembrando de onde venho.
Por Antonio Filho
Crônica publicada na Antologia Brasiliê, da Editora Articule. O lançamento oficial da obra ocorrerá em setembro de 2026, durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo.

