Não raro escuto pessoas dizendo: “tempo bom que não volta mais”. Outras, ainda jovens, afirmam sentir saudade de um tempo que nem chegaram a viver. E então fico pensando: que tempo era esse?
Talvez fosse um tempo sem tanta tecnologia, quando os dias passavam sem tanta pressa. As crianças corriam pelas ruas, inventavam brincadeiras, conheciam o mundo com os joelhos ralados, longe do estímulo incessante das telas dos smartphones e da overdose de distrações que hoje ocupa quase todo o silêncio.
Era um tempo em que as pessoas passavam horas nas calçadas, conversando sem olhar para o relógio. Histórias eram contadas devagar, ensinamentos surgiam naturalmente, e a sabedoria dos mais velhos tinha lugar certo nas noites tranquilas das cidades pequenas.
Vivíamos, talvez, menos angustiados. Ou ao menos parecia assim. O amanhã não vinha pesando tanto. Hoje ele chega carregado de boletos, faturas e uma rotina que exige dois trabalhos, às vezes três, para garantir uma vida minimamente digna. Antes, muitos eram felizes com pouco; agora, mesmo quando se conquista muito, quase sempre parece insuficiente.
As redes sociais ampliaram essa sensação. Vidas perfeitas, sorrisos constantes, viagens, conquistas. Tudo parece sempre melhor na tela do outro. E nessa comparação silenciosa nasce uma insatisfação permanente, como se a felicidade estivesse sempre no próximo passo, na próxima compra, na próxima meta, e nunca no agora.
É essa angústia, essa ansiedade silenciosa, que aos poucos nos faz esquecer quem somos e o que realmente importa. Por isso, talvez, tanta gente viva buscando lugares que já fizeram sentido para a mente e para o coração. A casa da avó. As brincadeiras de infância. A rua onde se aprendeu a andar de bicicleta. Lugares onde a felicidade não precisava ser explicada, apenas vivida.
Talvez o tempo bom não fosse perfeito. Talvez apenas fôssemos mais presentes dentro dele. E é por isso que certos lugares continuam existindo, mesmo quando já não estão lá. Eles permanecem guardados na lembrança, esperando o momento em que a gente desacelere o bastante para voltar.
Nem que seja só para… lembrar.
*Antônio Filho de Andrade é pós-graduado em jornalismo e cronista. Dedica-se à escrita memorialista, registrando experiências, lembranças e o cotidiano do interior como forma de preservar histórias e identidades. É autor do livro Conexões que Transformam e participante de antologias literárias nacionais. Também atua na área de comunicação institucional, unindo informação, sensibilidade e olhar humano em seus textos.
