Ouvi outro dia uma toada de vaquejada que dizia assim: “A sua inveja não diminui o meu talento, sua pedra jogada não vai me acertar”.
As toadas do Nordeste têm dessas coisas. Às vezes parecem apenas música de vaquejada, mas escondem pequenas crônicas cantadas. Falam de saudade, de coragem, de orgulho e também das coisas mais humanas que existem.
Entre elas, a inveja.
A Bíblia já tinha contado essa história muito antes de qualquer cientista colocar alguém dentro de uma máquina para estudar o cérebro. Caim matou Abel por inveja. Talvez tenha sido o primeiro caso registrado, ao menos nós, cristãos, cremos nisso.
Séculos depois, cientistas japoneses descobriram que existe até uma região do cérebro onde esse sentimento aparece. Li isso numa reportagem da BBC. A ciência, quem diria, acabou confirmando algo que a humanidade já intuía havia muito tempo: a inveja é quase um mecanismo automático da nossa natureza.
O curioso é que ela raramente nasce de longe.
Ninguém sente inveja de um rei da Dinamarca, de um astronauta russo ou de um bilionário do outro lado do mundo. A inveja costuma morar mais perto. Às vezes na mesma rua, no mesmo grupo, na mesma roda de conversa.
Ela nasce da intimidade.
A gente inveja o colega que conseguiu algo que parecia possível para nós também. O vizinho que prosperou um pouco mais. O amigo que recebeu o reconhecimento que imaginávamos merecer.
Talvez por isso a inveja seja como uma pedra pequena: não derruba muralhas, mas sempre tenta acertar alguém.
Hoje ela ganhou combustível novo. As redes sociais transformaram a vida em vitrine permanente. Antes a comparação era ocasional; agora acontece em tempo real. Enquanto alguém comemora uma conquista, outro olha pela tela e sente aquele incômodo silencioso que ninguém admite em voz alta.
Mas há outra curiosidade sobre a inveja.
Ela nunca diminuiu o talento de ninguém.
No máximo revela mais sobre quem sente do que sobre quem recebe. É como aquela pedra da toada: quem joga imagina que vai acertar o outro, mas muitas vezes ela apenas cai no chão do caminho.
E a vida vai seguindo.
Provavelmente as velhas toadas de vaquejada já tenham entendido o que muitos estudos ainda tentam explicar.
Porque quem tem talento continua caminhando.
E quem tem inveja geralmente fica parado, olhando.
*Antônio Filho de Andrade
