O domingo vai ficando cada vez mais um dia peculiar, ímpar mesmo. Talvez seja o único momento em que conseguimos frear a rotina apressada que tomou conta da semana. Mal vemos o tempo passar: vivemos no modo automático e, quando percebemos, já é segunda, já é sexta, e logo chega o domingo outra vez. O tempo corre mais do que conseguimos acompanhar, e nem sempre percebemos o quanto tudo é passageiro.
Tenho valorizado mais essa pausa e acho que há algo no domingo que convida a olhar a vida com mais calma, a pensar de forma mais abstrata, a perceber o que passou e até organizar o que vem pela frente. Não é apenas descansar, mas quase um reencontro com o próprio tempo.
Depois de adulto, acostumado a acordar cedo, já não consigo dormir até tarde, e isso tem vantagens. A manhã, por exemplo, rende mais. Ir à missa cedo é sempre uma experiência renovadora. O silêncio, a reflexão, a contemplação… tudo parece chamar para essa parada necessária.
Cada um vive o domingo à sua maneira. Há quem aproveite para colocar a casa em ordem, quem busque lazer, quem apenas desacelere. Outros seguem mais moderados, porque a segunda-feira está logo ali, e não dá para exagerar.
E quando a tarde começa a cair, surge aquele sentimento conhecido: um misto de saudosismo com esperança. A luz muda devagar, o silêncio aumenta, e o domingo vai se despedindo como quem sabe que cumpriu seu papel. Fica uma leve saudade do descanso que vai acabando, mas também uma esperança tranquila pelo que começa.
Talvez seja esse o seu valor maior. Em meio à pressa da semana, ele ainda lembra que viver também é saber, às vezes, parar.
*Antônio Filho de Andrade é pós-graduado em jornalismo e cronista. Dedica-se à escrita memorialista, registrando experiências, lembranças e o cotidiano do interior como forma de preservar histórias e identidades. É autor do livro Conexões que Transformam e participante de antologias literárias nacionais. Também atua na área de comunicação institucional, unindo informação, sensibilidade e olhar humano em seus textos.
