Lendo Rubem Alves, em seu livro Se eu pudesse viver minha vida novamente, grifei uma reflexão que ele faz sobre o olhar e sobre como o colocamos sobre as coisas. Em certo momento, ele cita o escritor alemão Rilke: “Quem assim nos fascinou para que tivéssemos esse olhar de despedida em tudo que fazemos?”. É uma pergunta inquietante e um chamamento para, de fato, olhar, e não apenas ver.
Esse olhar é típico dos poetas; eles possuem essa sensibilidade de enxergar o mundo com olhos de despedida. Os cronistas, de modo semelhante, trilham a mesma estrada, observando a vida com uma contemplação demorada.
Nós, no entanto, acordamos todos os dias com a insolência dos imortais. Escovamos os dentes, tomamos o café e vamos executar nossas tarefas como se o mundo fosse um cenário imutável, e nossa estabilidade nele estivesse garantida por contrato. O ego humano só aceita a brevidade dos outros; ocorre que, para os outros, nós também somos os outros.
Nisso, olhar com vontade é um exercício de humildade. É, mais ainda, desarmar o ego e admitir: “Eu não sou dono deste instante”. Quando olhamos para as pequenas coisas, como um arrebol no fim da tarde, percebemos melhor o mundo e também a nós mesmos.
Quem sabe a verdadeira tragédia não seja o fato de termos um fim, mas sim não enxergarmos nossa vida em meio a tantas distrações. Se pudéssemos experimentar cada momento como um ensaio para o último, não existiria monotonia, mas sim admiração. No fim das contas, os poetas não são seres melancólicos por se despedirem de tudo; são os únicos que realmente possuíram o que viram, porque tiveram a coragem de aceitar que a beleza só se entrega a quem sabe que ela vai passar.
