A Semana Santa no Nordeste ainda tenta resistir aos novos tempos, embora muita coisa tenha mudado. Esses dias, ouvi uma pessoa mais velha recordar que, antigamente, as pessoas falavam pouco, ficavam quase mudas e mantinham um silêncio de respeito, quase de luto.
Da Quarta-feira de Trevas ao Sábado de Aleluia, havia um recolhimento que misturava fé, resguardo e até temor. Esse silêncio já não existe mais. Foi substituído pelo turismo, pelas festas nos sítios e nas chácaras e pelo barulho das bebedeiras em casa, numa pressa de aproveitar o feriado prolongado. Em muitos lugares, o sino da igreja mal se ouve e acaba se perdendo no som mecânico dos carros, das caixas portáteis, das conversas altas e das risadas.
Até costumes curiosos, que durante muito tempo fizeram parte desse período, foram sendo esquecidos. Cobrir os espelhos, não varrer a casa, evitar banho ou lavar o cabelo na sexta-feira. Hoje, muita gente nem se lembra mais disso. Podia até parecer exagero, ou mesmo certo misticismo, mas tudo isso dava à Semana Santa um simbolismo religioso que, aos poucos, vai se apagando.
A Sexta-feira Santa, dia de jejum, deixou de ser, para muita gente, um dia de contenção e passou a ser ocasião de mesa farta, excessos e pouca reflexão. O dia ficou instagramável, e mostrar a melhor mesa e a maior diversidade de pratos virou quase uma necessidade.
O roxo dos panos cobrindo os espelhos vai dando lugar ao colorido das latinhas de cerveja. Se antes havia medo de desonrar um dia santo, hoje a preocupação parece ser não ter sinal de internet para mostrar o banquete. Junto com os costumes, também vai desaparecendo aquele silêncio que fazia as pessoas olharem mais para si mesmas.
