Em meu périplo por algumas obras de cronistas considerados mestres, acabei tropeçando de novo em Machado de Assis, um dos maiores gênios da nossa literatura. Memórias Póstumas de Brás Cubas, que obra. Eu já a tinha lido há muito tempo, mas nunca tinha parado para olhar aquele narrador morto como um cronista. Na verdade, tudo na vida é possível ver de diferentes ângulos, e foi aí que, mudando um pouco essa compreensão da obra, me veio o conceito de desver.
E se pudéssemos olhar para a vida por outro prisma? O que gostaríamos de desver no mundo? Muito do que vemos foi, antes, aprendido. Se fosse possível olhar de novo, sem tantos vícios, sem os estigmas, os preconceitos, os rótulos que vão se juntando com o tempo.
Brás Cubas escolheu falar já depois de morto. Talvez porque já não deve mais satisfação a ninguém, não precisa manter status nem preservar aparências. Ficou mais livre para julgar a si mesmo e aos outros, com suas mazelas, quase todas inúteis e descartáveis, como a hipocrisia, as picuinhas e os fuxicos de todo dia.
Brás Cubas vê o mundo como alguém que já atravessou a condição mortal e, por isso, sem a arrogância dos que vivem como se não fossem morrer, como se fossem eternos, e acabam não percebendo a própria vida. Até já sublinhei isso em um texto passado.
E se fosse possível resetar a visão? Como escolheríamos ver o mundo? Do alto da infância, por exemplo, como seria?
O adulto já não vê mais o mundo, apenas vai reconhecendo, preso a uma rotina quase automática. Diferente disso, a criança ainda carrega um olhar aberto, livre, sem tudo já definido. Não considera o mundo como algo “visto” e ainda tem muito a descobrir.
Talvez devêssemos desver um pouco o mundo. Olhar de novo, sem tanta pressa e sem achar que já sabe tudo. Quem sabe assim não volte também um pouco daquela antiga capacidade de se encantar com as coisas.
