Antes do advento da energia elétrica nas comunidades rurais no sertão, a dinâmica social era regida pelo sol. Se povos antigos tinham esse elemento até como divindade, por aqui ele, de fato, era quem dizia quando tudo começava e terminava na vida cotidiana. Por estarmos próximos à linha do equador, o dia clareia mais cedo, entre 4 e 5 da manhã, e, “chova ou faça sol”, a luta se inicia. Tem o leite das vacas que precisa ser tirado, o milho para as galinhas que precisa ser jogado no terreiro ou no oitão da casa, é encher a cabaça d’água fria do pote e seguir pra roça, porque já é “meidiinha”.
O dia é longo e o sol que castiga é quem dirá quando a luta termina, lá pelas 5 ou 6 da tarde, a depender do solstício do ano. Já tá “de noitinha”, hora de tanger o gado para o curral e apartar os bezerros, colocando-os no cercado junto das ovelhas, enquanto as galinhas vão subindo no poleiro do pé de juazeiro. Na lamparina, vai colocando querosene jacaré e aquele cheiro de fumaça será o aroma dali em diante. A luz cambaleante daquele candeeiro vai dar vida a histórias ou estórias dos mais velhos, ou ainda, fazer um balanço do dia ou de planos futuros, ou sem muita ambição, apenas do dia seguinte.
Pouco a pouco, as vozes iam se aninhando no silêncio da noite escura, quebrada só pelo estalar dos caibros roliços ou pelo vento nas telhas. O cansaço já pesava nos olhos, a chama da lamparina ia se apagando aos poucos, e todos iam caindo no sono, só esperando o sol nascer de novo pra tudo recomeçar.
