Vez ou outra escuto alguém dizer alguma palavra que quase não se ouve mais. São expressões remanescentes de um tempo em que muita coisa era transmitida pela fala e aprendida no convívio com os mais velhos. Não aparecem com frequência na televisão nem na internet e, a cada dia, parecem se tornar relíquias da nossa língua.
São palavras antigas, carregadas de sertão, que foram passando de boca em boca e acabaram ficando guardadas na memória de quem viveu outros tempos.
Havia palavra para quase tudo. A moça que chegava a certa idade sem casar estava no caritó. O menino que tinha dificuldade para aprender era chamado de rude, embora muita gente pronunciasse ruda. Quando começava a entender melhor as coisas, diziam que estava desasnando.
Quem tinha muita vergonha era beradeiro. A pessoa abatida, sem ânimo ou com febre, aparecia amurrinhada. Se uma criança adoecesse de repente, não faltava quem atribuísse ao quebranto, crença bastante presente nas conversas dos mais velhos.
Também havia palavras para os costumes do dia a dia. Quem demorava demais para fazer qualquer coisa tinha remancho. Quem exagerava na comida ficava empanzinado. Uma discussão sem grande importância era uma arenga. E, antes que alguém dissesse “mexer”, era comum ouvir o conselho: “Não vá bulir nisso.” Quem não parava quieto dizia-se que tinha um frivião.
O curioso é que muitas dessas palavras quase nunca eram vistas escritas. Eram aprendidas apenas ouvindo. Ninguém precisava consultar dicionário e bastava crescer no meio das conversas para compreender exatamente o que significavam.
Hoje, algumas dessas palavras ainda resistem, principalmente na fala dos mais velhos. Outras aparecem cada vez menos em meio às expressões que passaram a fazer parte do nosso dia a dia. E, diante disso, não é apenas a palavra que vai desaparecendo. Junto dela vai embora uma parte das nossas origens, da nossa identidade e também da forma como observamos as pessoas e explicamos a vida.
Por isso gosto de prestar atenção quando escuto uma dessas expressões numa conversa qualquer. Naquele instante, parece que não estou ouvindo apenas uma palavra antiga, mas ouvindo um pedaço do sertão que ainda insiste em permanecer vivo.
